Carta Aberta: Sobre travessias

Marcela Cantuária. Fogo, 2017 | Óleo sobre tela. 90 x 120 cm.

Estou completando uma década de pesquisa acadêmica, ingressei na universidade em 2009. Na época era garçom e estudava o bacharelado e licenciatura, ambos em Filosofia. Todo dia levava três horas e meia da minha casa na periferia de São Paulo até o Itaim Bibi, onde trabalhava em pé por horas até ir para a Universidade São Judas Tadeu (USJT), ler sobre Aristóteles, Sócrates e Platão. Ninguém compreendia ao certo o que eu fazia, um abismo se instaurou sobre minha família, meus amigos e aqueles com os quais eu havia vivido minha vida inteira. Ninguém entendia bem a minha escolha por estudar filosofia, já que não conhecíamos ninguém que havia feito isso e muito menos quais seriam as aplicações práticas que se desdobrariam deste curso. Pensando sobre esta época, eu tampouco saberia o que motivou minha escolha, mas ainda assim fui até o fim e me formei sem nenhuma reprovação, no tempo esperado e com uma monografia sobre um filósofo do iluminismo francês. Lia na van, no trem, no metrô e no ônibus. Me interessei pelo debate acerca das questões de gênero, talvez por minha própria relação com essas questões na minha vida anterior ao ingresso na universidade, meu interesse era guiado por uma compreensão de mim mesmo e do mundo que me cercava. 

Indo na contramão das expectativas, resolvi começar uma segunda graduação, o que parecia muita ousadia, uma vez que sendo filho de um faxineiro e uma diarista, escolhi fazer uma graduação distinta de todas as profissões que meus pais conheciam. No seguinte trajeto, optando por fazer um bacharelado em História da arte, mais uma vez me arriscava por caminhos distintos, dado que não frequentava museus e muito menos galerias. Porém, nesse segundo percurso já estava munido de um arsenal teórico institucional e decidido a enfrentar as barreiras que se colocariam em meu caminho. Tive que morar em uma ocupação dentro do próprio espaço da universidade, frequentando reuniões semanais, correndo o risco de ser expulso pela polícia a qualquer momento da madrugada. Por que teria que me submeter a isso se apenas desejava estudar? Convivia diariamente com pessoas onde o estudo era apenas uma escolha ordinária, se decide o que estudar e a vida segue. Eu tinha que morar em uma ocupação, escondendo de minha família minha real situação no Rio de Janeiro, pois sabia que em nada adiantaria compartilhar os percalços deste caminho, já que nada poderiam fazer para ajudar em minha situação – toda a renda já tinha destino muito bem encaminhado. Nesse tempo vi muitos amigos que passavam por situações distintas desistirem, e se submeter a tal papel não parecia uma escolha. Cada dia que passava, minha obstinação continuava a mesma. 

Fui aprovado no mestrado em uma das instituições mais caras que conhecia, juntamente com  curso de História da arte, vivendo clandestinamente dentro da universidade, comecei o mestrado em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC). Novamente era curioso, ir para a Fundação Getúlio Vargas e conviver com pessoas extremamente privilegiadas, onde o estudo era apenas a ordem corrente de seus dias. Me dividia entre a graduação, mestrado e vários projetos acadêmicos, que muito me interessavam, mas eram necessários – minha única fonte de renda eram bolsas de pesquisa e extensão. Na época recebia R$ 400,00, o banco ficava com R$ 180,00, já que ao largar o meu trabalho de garçom no meio da faculdade de filosofia, escolhi fazer o FIES, alguns me criticaram, mas na época, qual escolha eu poderia ter? Com R$ 220,00 vivia no Rio de Janeiro, e longe de reclamar, estava satisfeito, pois cada vez mais estava tendo experiências distintas das que anteriormente estavam em meu caminho. Considerando tudo isso está sendo escrito e exposto agora, me coloquei a pensar em uma frase de Derrida, em que ele aponta que o pensamento é a parte em branco do texto(1). Como meu pensamento é formulado? Quais são as partes em branco em cada parágrafo que escrevo? 

Fui aprovado para um intercâmbio na Espanha, novamente uma possibilidade de ir além do esperado, recebi uma bolsa de 2.200 € para passar um ano, curiosamente o valor média de uma bolsa na Europa é de 500 € mensais. Eu teria cerca de menos da metade deste valor, mas verificando o valor do aluguel vi que era possível. Nessa altura já estava terminando o mestrado, me arrisquei e ingressei no doutorado em Historia y Arte, voltei ao Brasil e fiz um acordo de cotutela com o Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFRJ. Passei um ano entre pessoas que tinham uma bolsa muito maior que a minha reclamando de dinheiro e do valor das viagens pela Europa. Sai da Espanha durante este ano duas vezes, uma vez para ir para Portugal e outra na França, ambas atividades formativas, na Universidade do Porto e na Universidade de Nantes. Havia aprendido que nenhum caminho seria trivial, fui morar em uma ocupação novamente, considerando que estudar o dia inteiro não me possibilitava trabalhar. Quanta coisa havia na parte em branco de cada texto meu, a centralidade de meus textos passaram a ser cada vez mais sobre o tema da subalternidade e da precariedade no contexto acadêmico e artístico. Comecei a ser criticado por alguns, chegaram a dizer que minha pesquisa estava se definindo quase como uma “fé cega”, uma tentativa de apontar que ainda que estivesse dentro de todos os parâmetros que a academia exige (pós graduando e frequentando eventos internacionais), ainda assim o que eu fazia não era dotado de tanta cientificidade como deveria. Isso só fez com que eu me dedicasse cada vez mais a pesquisar o tema das relações de poder que perpassam o campo da academia e da produção artística, o professor da Universidad Central de Venezuela, Daniel Mato diz  “aqueles que, como a produção de ‘estudos’, são evidentemente baseados em uma atividade reflexiva sobre como intervir simbolicamente nas relações de poder estabelecidas, como desconstruí-las, como reformulá-las, como alterá-las […] na minha opinião, esse campo não inclui apenas ‘estudos’, mas também “outras práticas‘”(2).

 O que mais poderia fazer? Todas as armas que eu poderia ter naquele momento, a única era minha fala. De um lado minha família que me cobrava resultados práticos destes estudos: “Cadê o emprego?”, “Não vai parar de estudar?”, “Fulano comprou um carro, Beltrano tem uma casa”, “Ciclano tem um emprego”. Ao mesmo tempo em que ingressar na universidade foi um orgulho para minha família, de repente parecia uma vergonha eu não sair dela. De onde eu venho a pós graduação nem ao menos faz sentido, após o estudo (entende-se graduação) outra vida deveria ser esperada. Por mais que explicasse, não fazia muito sentido. 

Minha monografia em História da Arte deu protagonismo para alguns desses espaços em branco, segui o conselho de Gayatri Spivak que diz “aquilo que é pensado, mesmo em branco, ainda está no texto e deve ser confiado ao Outro da história”.(3) Fiz minha monografia com ‘historiografia’ no título, pensando exatamente nesse lugar da teoria e da escrita; o espaço em branco adquirindo centralidade. Não à toa que na monografia sobre historiografia e arte contemporânea citei apenas um dos historiadores clássicos do campo da história da arte, e essa citação ao seu nome dá espaço apenas para uma nota de rodapé. Poderia me propor a escrever sobre qualquer outro tema, mas como não pensar nos espaços em branco de cada texto, nos desafios de cada parágrafo? Não tive formatura da primeira graduação, colei grau sozinho e fui para o ponto de ônibus. Defendi a dissertação e depois comemorei sozinho, assistindo série. A segunda graduação, colei grau e novamente fui pegar um ônibus para o centro da cidade – já não me lembro mais o que fui fazer. Produzi, tive minha primeira exposição individual que minha família não viu, a segunda muito menos. Continuei seguindo meu caminho. E mais coisas foram se acumulando no espaço em branco do meu texto. Esse espaço em branco outrora inacessível, foi tornando-se um texto interpretável, como lugar da produção de teoria. 

O sistema da arte exprimia violência e cada vez que me defrontava, e ainda defronta, com essas violências. Focava apenas em entender como meu ingresso nesse campo poderia servir para tais dinâmicas em debate. Nesse caminho fui ganhando espaço e conhecendo cada vez mais pessoas, que ainda que tivessem trajetórias distintas da minha, cooperavam com a criação de pontos de encontro e interesse que faziam com que caminhássemos juntos. Nesse sentido, escrevo essa carta não apenas para revelar esse espaço em branco do texto escrito, mas também para agradecer aos distintos processos que atravessei em conjunto com muitas pessoas. Minha lembrança mais forte de minha infância, eram as visitas ao trabalho do meu pai, onde a parte mais divertida era subir no elevador de serviço com ele que enquanto recolhia o lixo dos quinze andares do prédio. Ele me dava as revistas que eram jogadas fora, revistas antigas, as quais ele não sabia ler, mas via que eu me animava com determinadas posses. Após recolher o lixo de todos os andares, eu ficava no vestiário dos funcionários, lendo por horas todas as revistas, olhando coisas que não poderia ter, lugares que não iria conhecer. Lembro de ir nas casas que minha mãe trabalhava e recordar que não podia pedir nada, apenas esperar que me oferecessem e ainda assim me comportar sem aceitar novamente algo quando fosse oferecido por uma segunda vez. Agora assumo o compromisso da palavra escrita e me mesclo com ela, pontuando sempre que minha história se torna relevante não por ser minha, e sim por ser de muitos outros, como dito por Hannah Gadsby, Eu não conto isso para que me vejam como vítima. Não sou vítima. Conto isso, pois minha história tem valor. Conto isso pois quero que saibam, precisam que saibam o que eu sei.(4)

Neste ano fui aprovado para um congresso na Universidade da Califórnia e não tinha condições financeiras de participar. “Vozes Silenciadas”, era o título do evento. Em outra circunstância abandonaria a ideia e a colocaria na lista, junto de outras aprovações que não pude ir (como já ocorrera outras vezes), mas ao invés de me resignar, enviei um e-mail para a coordenação, apontando as especificidades e impossibilidades, deixando claro que por não ter dinheiro para circular na esfera acadêmica internacional, não iria participar com minha pesquisa que justamente debatia às relações de poder (e do capital) que impossibilitam minha voz de ocupar esse lugar. Com uma longa carta apontando essas questões, um dos organizadores entrou em contato comigo e abriu uma exceção para minha presença através de videoconferência, já que a universidade não dispunha de meios para arcar com minha presença, assim minha voz se fez ecoar, ainda que não pudesse estar presente fisicamente, como os outros.  

Fui aprovado para um evento na Universidade de Harvard, no mesmo centro de pesquisas que Marielle Franco deveria estar presente uma semana após sua execução. Diante de tantas necessidades nunca havia feito uma vaquinha, mas desta vez, pelo simbolismo desse deslocamento, fiz uma vaquinha, muitos compartilharam, outros avisaram que iriam contribuir. Um mês se passou e tinha arrecadado o equivalente a 10 dólares. Ao mesmo tempo pude testemunhar a criação de outras redes de colaboração. Nesse sentido ganha destaque o papel que a arte vem desempenhando na minha vida, possibilitando conhecer pessoas comprometidas com suas falas e proposições. Vi uma jovem que pinta sonhos, que ocupa uma encruzilhada de crítica ao capital, gerando trabalhos que ao mesmo tempo alcançam uma valorização por este capital. Fato que nos últimos anos acompanho não apenas dela, mas de muitos outros jovens artistas. Na contramão de muitos outros, sua valorização não alterou seus interesses. Na escassez do dinheiro, alguns se apegam com afinco a ele na primeira oportunidade, colocando para a borda alguns de seus discursos. Não é estranho doações no campo da arte, mecenas e filantropos realizam doações há séculos em nome de algum compromisso ou imagem  politicamente desejada. Marcela Cantuária vem realizando doações ao Museu da Maré, ao Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH) e a muitos particulares, os quais não me fazem sentir no direito de citar seus nomes. O que me chama atenção neste gesto é que ao contrário de mecenas ou filantropos, ela não ocupa tais lugares de privilégio e segurança, mas ainda assim entende as urgências do presente para além de suas provisões. 

Aproveito esta carta para agradecer a Marcela Cantuária que, com a doação de um trabalho (Fogo, 2017), financiou o meu atravessamento de fronteiras. Escrevo de Boston, onde acabo de poder compartilhar mais um pouco de minha tese com pesquisadores de toda América Latina, onde pude conhecer lutas distintas da minha, mas que também não foram fáceis, mas deixaram claro, que ocuparemos todos os lugares. Não haverá mais um centro onde não esteja um de nós, com nossas propostas que extrapolam a academia. Estar aqui possibilitou não apenas minha presença, mas como daqueles que me acompanharam, que neste episódio discuti um pouco de suas propostas que compartilham da mesma crítica da hegemonia que me interessa, foram os queridos Yhuri Cruz, Mulambö, Rafael Bqueer e a Castiel Vitorino Brasileiro – que embora não conheça pessoalmente admiro suas proposições. Junto com a Marcela agradeço também ao Grupo Paisagens Híbridas, aos amigos Rubens de Andrade, Fernando Ripe, Mauro Dillmann, Flávia Braga, Sylvia Coutinho, Pietro di Biase e a todos que de uma forma ou de outra me ajudaram a estar aqui, aos amigos que me aconselham cotidianamente e me ajudam a seguir, Allan Corsa, Ayla Tavares, Andressa Rocha, Bruna Levi, Camila Zarite, Diego Bacarva, Lucas Lugarinho, Lucas Henrique, Guilherme Siqueira, Hercules Pereira, Marcelle Sant’Ana, Matheus Simões, Maruan Sipert, Nathan Braga, Vicente de Mello, Vinicius Davi, Vitor Rodrigues e Yago Toscano.  Agradeço a todo suporte e atenção dado pela Bronia Greskovicova-Chang em todas as etapas de preparação da viagem e ao Alejandro de la Fuente por iniciar-me nessa área de estudos tão promissora. Ao apoio institucional da Escola Internacional de Pós Graduação da Universidade de Granada, ao Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFRJ e ao Hutchins Center for African & African American Research da Universidade de Harvard.

Esse gesto de não pedir, não aceitar da infância me levou a outro lugar…… Ainda não peço, mas pouco a pouco passo a exigir. Cheguei longe para aqueles que não esperavam que eu tivesse saído do lugar onde nasci. Talvez meu trabalho atualmente deva se comprometer a dar lugar aos espaços em brancos do texto, mais do que buscar por uma coesão inalcançável. Diversas vezes me falaram que eu não poderia ser algo, que não deveria arriscar em uma ou outra atividade. Devia escolher entre a produção artística, curadoria ou escrita acerca da história da arte. 2019 provou o contrário, há uma semana enviei meu primeiro texto para a Enciclopédia do Itaú Cultural. Ao sair do Brasil neste final de 2019, pude deixar três projetos curatoriais em exposição, na Galeria A Gentil Carioca, Villa Aymoré, Centro Cultural Light, além de um projeto fotográfico exposto no Centro Cultural da Câmara dos Deputados em Brasília e também em outras três exposições coletivas no Rio de Janeiro. Escrevo este texto da biblioteca da Universidade de Harvard, onde sigo com o desejo de cada vez mais estar junto às pessoas que somam comigo nessa tarefa de colocar os espaços em branco como protagonistas de minha escrita. Aos tantos artistas e teóricos que me ajudaram a seguir nesse caminho e a minha família que embora não entenda muito bem as escolhas que segui na vida, sabem que faço tudo isso não apenas mim, mas por todos eles e por nossa memória presente na ocupação de distintos lugares neste mundo.

Boston, Massachusett , 13 de dezembro de 2019.

Aldones Nino

Notas

(1) DERRIDA, Jacques. Of Grammatology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1976.

(2) MATO, Daniel. Estudios y otras prácticas intelectuales latinoamericanas en cultura y poder. Buenos Aires: CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales Editorial, 2002.

(3) SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar?. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2014, p. 107.

(4) GADSBY, Hannah. Nanette (69 min.). Direção: Madeleine Parry, Jon Olb. País: Austrália, 2018.