Anamorfoses e distopias | PH

No atual contexto brasileiro marcado pela realidade de pandemia do coronavírus, pela necessidade de isolamento social e pelas crises nas esferas política e econômica, como interpretar a paisagem que se revela na nossa contemporâneidade? Em meio ao reenquadramento do tempo, da diluição da fronteira entre trabalho, lazer e descanso provocada pelo “estar em casa”, de que forma lidamos com a atualização das informações em geral? E com as atualizações necessárias da própria reflexão teórica a que estamos vinculados? Como nossos conhecimentos específicos podem contribuir para a problematização do senso comum que assola as redes sociais, a comunicação impressa, digital e televisiva e a sociologia espontânea que afeta as conversas informais dos nossos cotidianos? Qual a esfera de experiências deste tempo presente? E ainda, o que temos projetado nas nossas expectativas em relação às trocas humanas, as relações socioespaciais e à construção de paisagens num tempo futuro próximo?

É um fato que a pandemia do coronavírus faz surgir movimentos vigorosos de descontinuidade no espaço-tempo e nas convivialidades que até então se firmavam no fluxo natural de nossos dias. O véu de ilusões que insinuava avanços na solução dos dilemas da nossa sociedade contemporânea, parece que, de fato, se rasgou, e mais, revelou no horizonte próximo, as rupturas e a face mais perversa de um sistema distópico que deixa cada vez mais visível seus anamorfismos. Eles confirmam o fato de que o notável crescimento dos centros urbanos, a alta tecnologia e a potência “transformadora” da cybercultura, que antes despontavam como resposta às distopias vividas ao longo do século XX e nestas primeiras décadas do século XXI, era uma camada frágil e, na prática, parece não ter oferecido, pelo menos até o momento, respostas à altura diante de um o problema de saúde pública que se instalou com profundidade e ceifa inúmeras vidas em esfera global: a Pandemia de Covid-19.

Na ordem dos acontecimentos que se desdobram nos tecidos urbanos globais, a Covid-19 cria a cada nova semana cenários distópicos que seguem alterando radicalmente a paisagem. Suas implicações são gigantescas e sua forma é muito própria ao se instalar em diferentes territórios do viver humano e não-humano. No que tange aos cenários econômico e geopolítico, pouco a pouco as lideranças mundiais e nacionais, organismos internacionais e instituições humanitárias identificam a força aniquiladora e a extensão dos transtornos e males gerados pelo vírus. Sua amplitude também afeta a macro/micro políticas de Estados nacionais e em alguns casos expõe práticas necropolíticas que atingem em cheio grupos mais frágeis da sociedade. Há ainda mais camadas nesse espiral descendente: incertezas na cura, tensões cotidianas, a dor e a angústia que se instalam devido à perda de centenas de vidas, a instabilidade de empregos, os desequilíbrios psicossociais e tudo o mais que desencadeiam limitações/alterações socioespaciais. Mas estamos descobrindo a dinâmica da doença e suas repercussões. Suas manifestações avançam com rapidez e assombram outros campos que nos são fundantes. Afinal, quem consegue viver sem educação, arte e cultura? Esse tripé sensível ao nosso viver foi atingido profundamente e, nesses tempos provoca muitas preocupações. Ademais, constatamos que a sociedade, a cidade e suas paisagens foram sequestradas por um microorganismo que não possui até o momento “credenciais” para ser compreendido na sua totalidade e mais, segue “resoluto” propagando o caos, multiplicando a dor e deixando na atmosfera de nossos dias, partículas de dúvidas e inseguranças para seguirmos adiante.

Considerando todo esse contexto, presumimos que as perguntas apenas se multiplicam a cada dia mediante o avanço de contaminados e o número projetado de mortos pelos boletins governamentais e sites especializados de instituições. Contrastar cada um dos lados dessa catástrofe e dar conta de que a finitude humana ganhou o status de maior relevância nos noticiários do dia, e esse fato apenas amplia o temor e o tamanho da lista de questões. No trânsito de informações, ecoam dúvidas que dizem respeito ao usufruto dos espaços, quer sejam eles públicos ou privados. Ao analisar em perspectiva o assunto, questionamos: estariam eles sendo revestidos de novos sentidos devido à ausência ou minimização do corpo social? E quais seriam, então, esses sentidos? E quanto aos impactos ambientais apregoados por instituições científicas e cientistas independentes, como se revelam ao considerar stricto sensu o choque gerado pela Covid-19? A listagem não termina. Surgem ainda dúvidas sobre os efeitos e os hábitos produzidos a partir da quarentena e indagações em torno do senso colaborativo: estaríamos mais solidários, mais solitários ou mais egoístas?

As limitações impostas mundialmente pela crise socioeconômica nos levará a questionar em que mundo queremos viver. Porém, por ora, a necessidade do enclausuramento da sociedade deixou/deixa claro um determinado revés: é através do fortalecimento da democracia que uma sociedade tem reais condições de resiliência perante adversidades que venham a surgir. E, no espaldar destas questões, as necessidades humanas por afeto, por laços de memória, por ambientes salubres, pela vivência em comunidade, pela responsabilidade com o meio ambiente, surgem como aspectos inalienáveis de um mundo pós-coronavírus.

Diante da perspectiva apresentada cremos que uma compilação de reflexões de um tempo-espaço tão distinto seria uma forma vigorosa de pautar os temas que nos tocam e que despontam como urgentes ao nosso olhar. Nossa contribuição, enquanto docentes, pesquisados e artistas que se debruçam em analisar hibridamente as paisagens é o interesse de refletir, problematizar criar a partir de conhecimentos científicos comprometidos com um horizonte de verdade, de verificabilidade, de controvérsia teórica e de respeito ao pluralismo de ideias.

Alda Azevedo | Mauro Dillmann | Rubens de Andrade