SEMINÁRIO INTERNACIONAL ARQUEOLOGIA/2027

RIO DE JANEIRO, 31 DE JULHO A 03 DE AGOSTO DE 2027

Programa de Pós-Graduação em Arquitetura | PROARQ-FAU UFRJ
Escola de Belas Artes | EBA UFRJ
Fundação Oswaldo Cruz | FIOCRUZ
Mestrado Profissional em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos | MP CECRE UFBA

O Seminário Internacional Arqueologia de Paisagens Múltiplas nasce de uma inquietação epistemológica: o que a Arqueologia, enquanto ciência dos vestígios humanos organizados no tempo-espaço de longa duração, pode dizer sobre paisagens em que o objeto não está soterrado, mas exposto, cultivado e em constante mutação? Refletir sobre os métodos, conceitos e sensibilidades que mobilizam e configuram o campo, torna-se a proposta desse encontro científico que busca reunir estudos conduzidos por estudantes, pesquisadores e profissionais nacionais e internacionais.

“Paisagens múltiplas” condensam temporalidades heterogêneas que vão da longa duração pré-histórica, pré-colonial, histórica e ecológica às transformações rápidas da vida social contemporânea. Sua produção dinamiza agentes humanos ou não humanos, entrelaçando materialidades, que vão do construído ao biótico, do visível ao soterrado, do concreto ao simbólico. São também múltiplas nos modos de habitar e significar o espaço, reunindo práticas cotidianas, saberes tradicionais, projetos técnicos e disputas de memória.

Este evento propõe uma plataforma de diálogo interdisciplinar entre arqueólogos, paisagistas, arquitetos, conservadores, urbanistas, geógrafos, historiadores, ecólogos, antropólogos e representantes de comunidades originárias, reunidos em torno de um problema compartilhado: a leitura da paisagem compreendida simultaneamente como documento, artefato e construção social de longa e curta duração. Tal compreensão exige uma interface ampliada entre disciplinas tradicionalmente voltadas ao estudo e à produção do espaço. A arqueologia encontra, assim, na arquitetura, no urbanismo, na geografia e no paisagismo, interlocutores fundamentais para o entendimento de paisagens que são simultaneamente herdadas, projetadas, cultivadas e habitadas.

A realização no Rio de Janeiro não é casual. A cidade abriga estratos arqueológicos de excepcional complexidade, de sítios que remetem à diáspora africana, como todo o complexo do Valongo até sítios de contato indígena com o colonizador, como o exemplo da Igreja do Carmo e da Praça XV de Novembro, das fazendas coloniais aos parques republicanos. O Rio é, em si, uma paisagem arqueológica múltipla.

A Arqueologia, ao longo de sua trajetória disciplinar, privilegiou o registro estratigráfico profundo e a longa duração como critérios de relevância científica. Esse modelo, herdado do historicismo cultural e consolidado pelo processualismo, relegou a um segundo plano os vestígios paisagísticos recentes, superficiais e bióticos, mesmo quando esses vestígios constituíam densas camadas de significado cultural, identitário e histórico. Estudos iniciais abordaram a paisagem sob seu aspecto empírico e fisionômico, operando como um mero cenário das ações sociais. As bases teóricas advindas da geografia cultural e da fenomenologia contribuíram para a arqueologia situar a paisagem como um elemento de consistência subjetiva e, por isso, concorrente na construção de relações sociais. Há, porém, uma conexão mútua entre ambos. Daí decorre que, sociedades se organizam no espaço conforme percebem suas paisagens e as percebem conforme as organizam.

A partir dessa virada interpretativa seguiu-se o amadurecimento teórico da Arqueologia da Paisagem, especialmente pelas contribuições de autores como Felipe Criado Boado (1999; 1996; 1993), Wendy Ashmore (Ashmore e Blackmore, 2008), Arthur Bernard Knapp (2013), Tim Ingold (2007; 2000; 1993), Christopher Tilley (2008; 2007), Bárbara Bender (2008; 1993), Peter J. Ucko (2000), Robert Layton (1994), Patricia Rubertone (1989; 1986), dentre outros. Assim, deslocou-se o olhar da disciplina do sítio isolado para o território como totalidade relacional. A paisagem passou a ser compreendida não como cenário passivo, mas como construção ativa, portadora de memória, símbolo e agência.

No Brasil, esse debate adquire especificidade singular com as abordagens teóricas, dentre outras, de Marcelo Fagundes (2019; 2010; 2009) e os lugares persistentes, de Arkley Bandeira (2016) com a paisagem de sambaquis, Roberto Pellini (2009) e as paisagens etnográficas e contemporâneas, Jailton Lino (2013; 2011) e as paisagens de guerra, Jorge Eremides (2006) com paisagens etnográficas e pré-coloniais, Sílvia Copé (2006) e a arqueologia espacial, Ana Cristina Sousa (2005; 1995) e a paisagem de caminhos e estradas, Maria Cristina Kormikiari (2000) e André Strauss (2021) com a teoria da arqueologia da paisagem, além das contribuições de Adriana Fraga da Silva (2006), Fernanda Libório Ribeiro Simões (2012), Ane Elisabeth Modesti Simões e Andrea Lessa (2026), Reinaldo Bernardes Tavares, Cláudia Rodrigues Carvalho e Andrea Lessa (2020) e Victor Andrade Melo e André Leonardo Chevitarese (2019).

As paisagens no Brasil são constituídas de ocupações plurais: povos originários que moldaram florestas e solos por milênios; a violência colonial que reordenou territórios e introduziu espécies; os projetos civilizatórios que redesenharam jardins e parques como expressão de poder e as comunidades contemporâneas que ressignificam esses espaços na luta por identidade e memória. Estudar arqueologicamente essas paisagens é, portanto, um ato científico e político.

GERAL
Promover um debate científico internacional e interdisciplinar sobre a paisagem como categoria de investigação arqueológica e suas interfaces com a Geografia, a História, a Antropologia, a Arquitetura, o Urbanismo e o Paisagismo, ampliando os horizontes epistemológicos, teóricos e metodológicos da Arqueologia a partir de experiências empíricas, tradições intelectuais diversas e diferentes perspectivas de interpretação das paisagens.

ESPECÍFICOS
Reunir pesquisadores nacionais e internacionais que atuam nos campos da Arqueologia da Paisagem, do patrimônio paisagístico e de áreas correlatas, favorecendo o intercâmbio de experiências, perspectivas teóricas e abordagens metodológicas.

Debater os limites e as potencialidades do conceito de paisagem enquanto categoria analítica na Arqueologia, com atenção às tensões entre longa e curta duração, entre o soterrado e o visível, entre o biótico e o construído.

Discutir a legitimidade epistemológica e os desafios teórico-metodológicos do estudo arqueológico das paisagens, tomando as paisagens arqueológicas do Rio de Janeiro como campo empírico privilegiado para a reflexão e para o diálogo interdisciplinar.

Fortalecer redes de pesquisa e colaboração entre universidades, museus, instituições de patrimônio e comunidades, estimulando o intercâmbio científico e a produção e circulação de novas pesquisas por meio de um chamado internacional.

Admitindo-se que a paisagem pode ser compreendida sob diferentes bases teóricas, o seminário não pretende se vincular a um só modo de conhecer o objeto estudado. Ao contrário, propõe articular um diálogo entre as diferentes epistemologias, tentando desenvolver seus pontos fortes, numa interlocução viva, crítica e reflexiva. Dentre os quais:

Arqueologia da Paisagem | A interlocução com os estudos despontados na geografia cultural na década de 1980 fez a paisagem arqueológica renovar sua perspectiva. Na década seguinte, converteu-se de cenário passivo a elemento ativo e constitutivo das relações sociais (Boado, 1993; Bender, 1993; Tilley, 2008; Ucko e Layton, 1999). Recebeu várias definições como uma disciplina aplicada a perspectivas culturais e naturais (Kluiving, 2012) e como estratégia de investigação, identificação e compreensão do registro arqueológico visando a reconstrução de paisagens e seus processos de continuidade e mudança (Boado, 1993). Como campo de estudos, a arqueologia da paisagem recoloca a paisagem como elemento central para os estudos da materialidade e espacialidade. Capaz de interligar diversos elementos na formação do registro arqueológico e analisar tantos os fatores empíricos quanto os simbólicos que atuam na modelagem do espaço e nas relações humanas.

Perspectivas mais contemporâneas, voltam a dar ênfase na rematerialização das paisagens e apostam na pós-fenomenologia, reclamando a necessidade de darmos mais atenção ao material do que a materialidade das coisas (Olsen, 2012; 2010; 2003; Ingold, 2000; Hamilaki, 2015). Em paralelo e, em certa medida, em contraposição a essa perspectiva, encontramos uma arqueologia dos sentidos, ou uma etnoarqueologia – preocupada com a percepção que temos da paisagem quando vivemos, habitamos ou a experienciamos (Pellini, 2015; Ruibal, 2026, 2012, 2006). O leque de possibilidades – para se conhecer a paisagem é diversificado e apostamos na capacidade que cada um deles têm para trazer sua contribuição.

A paisagem sob os signos arqueológicos | Tim Ingold (1993) e Christopher Tilley (1994) introduziram a perspectiva fenomenológica, tratando a paisagem como campo relacional vivido, percebido e habitado corporalmente. A noção de agência da paisagem - sua capacidade de estruturar comportamentos, memórias e identidades - é central para compreender objetos que interagem ativamente com seus frequentadores e produtores.

Patrimônio, memória e Arqueologia Pública | Patrimônio, valor cultural e memória são camadas constitutivas das paisagens arqueológicas. Ao emaranhar estas dimensões, nem sempre elas são transparentes para o senso comum. É papel da Arqueologia Pública cumprir esse dever de caráter informativo, transparente, dialógico, pedagógico e de justiça patrimonial entre a comunidade e a materialidade arqueológica que a envolve. Os trabalhos desenvolvidos por Márcia Bezerra (2013) e Lúcio Menezes Ferreira (2015; 2013) reforçam a compreensão da Arqueologia Pública como prática dialógica e politicamente situada, comprometida com a democratização do conhecimento, a mediação dos conflitos de representação do patrimônio e a legitimação das múltiplas narrativas produzidas pelas comunidades em relação às materialidades do passado.

A Comissão Organizadora do Seminário Internacional Arqueologia de Paisagens Múltiplas convida pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, bem como profissionais e demais interessados de áreas afins, a submeterem trabalhos científicos resultantes de pesquisas, estudos e experiências relacionados ao recorte temático do evento.

Serão recebidos resumos expandidos, em português, espanhol, francês ou inglês, destinados à avaliação da Comissão Científica do Seminário. Os trabalhos poderão apresentar resultados de pesquisas concluídas ou em desenvolvimento, estudos teóricos e conceituais, análises de experiências e práticas, investigações empíricas, estudos de caso ou outras contribuições científicas pertinentes aos três Eixos Temáticos. Serão também aceitos aqueles que envolvam às questões que orientam o recorte temático do Seminário e que contribuam para o debate sobre a arqueologia de paisagens múltiplas, considerando suas dimensões históricas, culturais, territoriais, ambientais, sociais, políticas, estéticas, bem como os diferentes modos de produção, apropriação, representação e transformação das paisagens. Serão especialmente acolhidas pesquisas que estabeleçam diálogos interdisciplinares e abordagens capazes de tensionar fronteiras entre campos do conhecimento, práticas sociais e formas diversas de experiência e interpretação da paisagem

A seleção dos trabalhos será realizada pela Comissão Científica, considerando sua pertinência ao recorte temático do evento, consistência teórico-metodológica, relevância da abordagem e contribuição para a construção do debate proposto pelo Arqueologia de Paisagens Múltiplas.



EIXOS TEMÁTICOS PARA SUBMISSÃO
As propostas podem se inscrever em um dos seguintes eixos:

EIXO I
Arqueologia da Paisagem

Epistemologias, conceitos, métodos e debates contemporâneos da Arqueologia da Paisagem, com ênfase nas diferentes formas de compreender as relações entre sociedade, território e ambiente. Estudos arqueológicos e interfaces disciplinares voltadas à investigação das relações entre materialidade, espacialidade, temporalidades e experiências, do soterrado ao visível e do construído ao biótico.

Sítios arqueológicos, paisagens e comunidades, considerando as relações entre práticas, memórias e formas de habitar e significar o espaço. Arqueologia Urbana, povos originários e paisagens ancestrais, paisagens da diáspora africana e paisagens coloniais, em diálogo com perspectivas decoloniais e com as múltiplas temporalidades, narrativas e disputas que constituem as paisagens arqueológicas.

EIXO III
Patrimônio, memória e Arqueologia Pública

Patrimônio arqueológico, gestão e políticas públicas, considerando os processos de atribuição de valor, preservação e apropriação social. Arqueologia, memória social, comunicação e educação como campos de diálogo, participação e mediação entre conhecimento científico, patrimônio e comunidades, valorizando a pluralidade de narrativas e os princípios de democratização e justiça patrimonial.

MODALIDADE DE SUBMISSÃO

1) Comunicação (apresentação de 15 minutos).
2) Serão aceitas até 02 comunicações por autor.
3) Os trabalhos podem ter até 05 integrantes e obrigatoriamente 01 autor deve se inscrever no evento.

NORMAS DOS RESUMOS EXPANDIDOS

Resumo expandido

1) Corpo do texto entre 800 a 1200 palavras
2) Incluir obrigatoriamente 5 (cinco) palavras-chave
3) Corpo do texto: Contexto do tema e objeto da pesquisa, referencial teórico-metodológico, resultados parciais ou esperados e referências principais.
4) O documento pode conter até 3 (três) imagens com resolução mínima de 300 dpi.
5) As submissões devem ser enviadas pelo link abaixo indicado (Google forms).
6) A proposta deve identificar a que eixo está sendo submetida.

Modalidades de submissão

1) Serão aceitas até 02 (duas) comunicações por autor.
2) As comunicações podem ter até 05 (Cinco) integrantes e ao menos 01 autor deve se inscrever no evento.
3) As/Os Comunicadoras/es terão 15 minutos para apresentação de suas pesquisas nas Sessões Temáticas


Os resumos expandidos selecionados pela Comissão Científica para Comunicação nas Sessões Temáticas do Seminário Internacional Arqueologia de Paisagens Múltiplas serão reunidos em uma Coletânea no formato e-book, publicado pela Editora Paisagens Híbridas (com registro de ISBN). Edição prevista para julho de 2027. A publicação contemplará todos os trabalhos aprovados para os três eixos temáticos que estruturam o Seminário.

Como desdobramento da seleção de Resumos Expandidos, os trabalhos que, segundo a avaliação e indicação da Comissão Científica, apresentarem relevância temática, originalidade e rigor científico, serão convidados a desenvolver seus resumos expandidos em textos completos, observadas as orientações editoriais e os prazos posteriormente estabelecidos pela organização do evento. As versões completas dos trabalhos indicados pela Comissão Científica integrarão, duas modalidades de publicação: o Dossiê especial Arqueologia de Paisagens Múltiplas da Revista Paisagens Híbridas prevista para Dezembro de 2027 (ISSN 2595-9638)  e o e-book do Arqueologia de Paisagens Múltiplas: vestígios em movimento, publicado pela Editora Paisagens Híbridas, com registros de ISBN E DOI.

As propostas editoriais asseguram não apenas a documentação e a circulação das pesquisas apresentadas no Seminário, mas também pretende a criação de uma segunda instância de reconhecimento e difusão da produção científica que se destacar pela consistência teórica e metodológica, relevância do objeto, originalidade da abordagem e contribuição para o debate sobre o recorte temático do seminário.


ABERTURA DAS SUBMISSÕES

PRAZO FINAL PARA ENVIO DE RESUMOS

DIVULGAÇÃO DOS TRABALHOS APROVADOS

INSCRIÇÃO DOS COMUNICADORES

ENVIO DE TEXTO COMPLETO PARA OS ANAIS

INSCRIÇÕESTARIFASDATAS
COMUNICAÇÕESR$ 300,0010 a 25 DE FEVEREIRO DE 2027
Ouvintes que solicitarem certificação de participaçãoR$ 25,00

PLANTILLA EN ESPAÑOL DEL RESUMEN EXTENDIDO

PORTUGUESE TEMPLATE FOR THE EXTENDED ABSTRACT





REALIZAÇÃO
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura | PROARQ-FAU UFRJ
Escola de Belas Artes | EBA UFRJ
Fundação Oswaldo Cruz | FIOCRUZ
Mestrado Profissional em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos | MP-CECRE UFBA

COORDENAÇÃO
Tatiana de Carvalho Costa
Inês El-Jaick Andrade
Christiane Chagas Martins

COMISSÃO ORGANIZADORA
Christiane Chagas Martins
Inês El-Jaick Andrade
Jackeline de Macedo
Rubens de Andrade
Tatiana de Carvalho Costa

Linhas de Pesquisa
Projetos em andamento
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