Arte-Cidade: Cidade-ciborgue| Curso de História da Arte | 2019/1

Prof. Rubens de Andrade | BAH-EBA/UFRJ 
Aldones Nino* | Pesquisador Convidado - Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas - GPHP-EBA/UFRJ
Quarta-feira: 10:00 - 12:00

O Tópico Especial

Cidade-ciborgue e paisagens pós-orgânicas são os eixos conceituais definidos para refletir sobre as transformações sócio-espaciais, as convergências transculturais e a estética artístico-visual que se materializam e se manifestam em ambientes urbanos contemporâneos a partir dos saberes vinculados à cibercultura e às pesquisas sobre inteligência artificial.

A matriz temática do curso propõe uma reflexão histórica sobre a intelligentsia científica-tecnológica e discute aspectos relativos à hegemonia geopolítica euroamericana que teve como pano de fundo a Guerra Fria. Nessa fase, mais particularmente após os anos 1960, foram formuladas as bases empíricas e o arcabouço conceitual que disseminou as tecnologias da informação e consequentemente, a construção de uma Sociedade da informação.

O processamento de dados eletrônicos, assim como a invenção de instrumentos – supercomputadores, satélites, sistemas de comunicação/defesa e novas mídias – definiram o cenário do poder hipnótico da fantasia audiovisual sobre a imaginação pública, refletindo um sintoma ideológico de hegemonias proféticas da alta tecnologia (BARBROOK, 2009) que pregava, entre outras coisas, a dissolução de fronteiras geográficas, o compartilhamento e a popularização da informação. Em contrapartida, junto a esses ganhos, a tecnologia da informação impôs ao cidadão o controle social, a vigilância dos IP (Internet Protocol), a concentração de poder político-financeiro das nações mais ricas e a criação de estratégias geopolíticas pautadas por disputas territoriais e jogos de guerra.

Ante a esse processo, as estruturas científico-militar-industrial científico-cultural (DAVIS, 1990) defendiam entre outras coisas a supremacia das máquinas, profetizavam a iminente chegada da utopia digital e acreditavam na criação da inteligência não-biológica (BARBROOK, 2009; CHAMAYOU, 2015). A fusão desses ideários seriam em parte o fundamento para o “futuro e prosperidade da humanidade”.

A primazia do pensar tecnológico ao longo das últimas décadas ampliou associações entre natural e artificial, sofisticou processos simbióticos entre seres animados e inanimados (ciborgues), proporcionou a criação de inteligência artificial, arquitetou ambientes digitais e produziu ambiências cibernéticas; além disso, conectou diferentes grupos culturais, assegurou conquistas na medicina, gerou novos hábitos sociais, popularizou laptops, internet, smarthpones, drones e potencializou o surgimento de ideias que ultrapassaram tradicionais interpretações sobre a vida humana, a partir desse momento fundadas por teorias que tratam a ideia do pós-humano.

Com o passar do tempo, considerando-se a audiência da ficção científica e os ganhos ampliados da revolução digital, a sociedade constatou que nem todas as promessas foram cumpridas. Independente de tais aspectos, as transformações no modo de pensar da sociedade se atualizaram e reformularam a consciência do cidadão que vive no seu dia a dia os reflexos das tecnologias da informação nos caixas eletrônicos, no download de programas e arquivos na web, nas telas de led das vias urbanas, no controle de aeronaves em aeroportos, na troca de mensagens via WhatsApp. Nesse cotidiano digital, a sociedade lança olhares críticos para o processo de aprimoramento tecnológico na vida urbana. Logo, nada mais natural que o surgimento de questionamentos sobre a validade, limites e ganhos de se viver em uma cidade sobrecarregada de dispositivos ciborgues e permeada por inteligência artificial que, ao mesmo tempo que facilita hábitos rotineiros ao dissipar barreiras informacionais, também, vigia, cerceia e vicia o cidadão.

Os ganhos tecnológicos da era digital e os novos paradigmas cibernéticos seguem disponibilizando diferentes modalidades e múltiplas formulações para pensar a simbiose entre o humano e a máquina, o que em si, segue aprofundando os fundamentos das pesquisas e os ideários sobre o pós-humano. Grosso modo, suas bases prometem num futuro próximo, o alcance do equilíbrio do organismo físico, perfeição e sobrevida a qual o ser humano por hora ainda não possui.

De todo modo, ao desvelar os critérios atrelados às ideias da cidade-ciborguiana e atributos conceituais e teóricos subordinados aos estudos da paisagem, a disciplina pretende refletir sobre a produção do espaço urbano contemporâneo, em particular, de cidades atreladas à sistemas de inteligência artificial, dependentes da onipresença tecnológica que pautam hábitos sociais (upgradesdownloads etc.) e são atravessadas pelos ideários da cibercultura. Tais aspectos não apenas estimulam, mas também, influenciam o projeto e a dinâmica das paisagens pós-orgânicas. De todas as relações e atravessamentos indicados, nasce também a disposição para interpretar como o campo das artes visuais em seus múltiplos vetores, transitam na cidade e manifestam a narrativa de artistas e obras de arte perpassadas pelos campos de estudos da cibercultura e da inteligência artificial, lidas aqui, através das perspectivas transhistórica e transdisciplinar.

* Pesquisador convidado | Doutorando em Historia y Arte pela Escuela Internacional de Posgrado de la Univer­sidad de Granada, Espanha e pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais – PPGAV-EBA/UFRJ. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais (PPHPBC), Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas e Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu, USJT-São Paulo.

O Programa

Sessão de AulaDiaRecorte Temáticos
13MARApresentação da disciplina
20MARCidades, ciborgues e paisagens pós-orgânicas
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2001. [Dilúvios, 11-18].
CAUQUELIN, Anne. Paisagem e virtual, dois mundos separados In: CARDOSO, Isabel Lopes (Org.), Paisagem patrimônio: aproximações pluridisciplinares. Porto: Dafne, 2013. [p. 19-31].
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac-Naify,2013. [A fábrica, p. 33-44; A alavanca contra-ataca, p. 45-50; A não coisa [1], p. 52-58].

Texto Complementar
LEMOS, André. Cidade-ciborgue: a cidade na cibercultura In: Galáxia, n. 8, outubro 2004. https://revistas.pucsp.br/galaxia/issue/view/116/showToc
27MARSobre futuros imaginários: jogos de guerra, computadores e novas plataformas tecnológicas
LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2016. [A rede digital, p. 102-114; O tempo real, p.115-131].
CHAMAYOU, Grégoire. Teoria do Drone. São Paulo: Cosac Naify, 2015. [Drones e camisacases, p. 97-102; Psicopatologias do drone, p. 120-128].
BAUMAN, Zygmunt; LEONCINI, Thomas. Nascidos em tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. [Buscar abrigo na caixa de Pandora, medo e incerteza na vida urbana. p. 52-73].

Texto Complementar
BARBROOK, Richard. Futuros imaginários: das máquinas pensantes à aldeia global. São Paulo: Petrópolis, 2009. [O futuro é o que sempre foi, p. 31-63; A computação da guerra fria, p. 65-77; Supremacia cibernética, p. 91-105].
03ABRPaisagens do amanhã: supercomputadores, pós-modernidade e robocops
KUNZRU, Hari. Genealogia do ciborgue In: HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari Kunzru. Antropologia do ciborgue: As vertigens do pós-humano. São Paulo: Autêntica, 2000. [p. 119-129].
DAVIS, Mike. Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles. São Paulo: Página aberta, 1990. [Fortaleza LA, p. 203-232]
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34. 2013, [Redistribuição, p. 129-143].

Texto Complementar
GLASSER, Edward. O triunfo da cidade. São Paulo: BEí, 2016, [Ascensão do vale do Silício, p. 29-40]
10ABRAula Cancelada na UFRJ
17ABRTrânsito de dados, deslocamentos no cyberspaço: paisagens virtuais, inter-tele-comunicação e o imaginário da vida urbana
FELICE, Mássimo di. Paisagens pós-urbanas. São Paulo: Annablume: 2009. [Trânsitos eletrônicos, p. 167-183].

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2001. [O ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica, 185-196; O tempo real, 115-131].
24ABRPós-Humano e multiculturalismo – permanências na arquitetura de paisagens pós-orgânicas I
COLOSSO, Paolo. Nas metrópoles delirantes – entre a bigness e o big business. São Paulo: Annablume, 2017. [Bigness: a hiperarquitetura nas cidades genéricas, p. 65-109].

CANCLINE, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos: conflitos culturais e globalização. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. [Narrar o multiculturalismo, p. 143-160; Suburbios pós-nacionais, p. 161-177].
01MAIFeriado | Dia do Trabalho
08MAINão haverá aula
15MAIPós-Humano e multiculturalismo – permanências na arquitetura de paisagens pós-orgânicas II
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. [O corpo biocibernético e o advento do pós-humano, p. 151-180].

SIBILA, Paula, o corpo obsoleto e as tiranias do upgrade In: Revista Verve, 6: 199-226, 2004.
http://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/viewFile/5011/3553
22MAIArte, corpo-ciborgue e cibercultura I: desagregação da tradição artística e disseminação de novas conexões digitais
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. [O corpo vivo como suporte da arte, p. 251-270].
NUNES, Mônica. Memória, consumo e memes de afeto nas cenas cosplay e furry In: Revista Contracampo, Niterói, v. 35, n. 1, p. 142-162, abr./jul., 2016.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. [As artes do corpo biocibernético, p. 270-301].

Texto Complementar
Cardoso, Jean, O ciborgue entre a bio-arte e a arte disturbatória In: Revista Ilha do Desterro, http://www.scielo.br/pdf/ides/v70n2/2175-8026-ides-70-02-00029.pdf
29MAINão haverá aula
05JUNArte, corpo-ciborgue e cibercultura II: dissolução das monoidentidades e transculturalidade
Haraway, Donna J. Manifesto ciborgue Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX In: HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari Kunzru. Antropologia do ciborgue: As vertigens do pós-humano. São Paulo: Autêntica, 2000. [p. 33-58].
BAUMAN, Zygmunt; LEONCINI, Thomas. Nascidos em tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. [Transformações sexuais e amorosas: derrocada dos tabus na era do amor on-line. p. 91-89].

Texto Complementar
CAMINHAS, Lorena Rubia Pereira. A midiatização dos mercados do sexo e a configuração da experiência erótica mediada In: Revista Galaxia, (São Paulo, online), ISSN 1982-2553, n. 37, jan-abr., 2018, p. 162-174 Acesso: http://revistas.pucsp.br/galaxia/article/view/32548/25257
12JUN
19JUN

Referências

BARBROOK, Richard. Futuros imaginários: das máquinas pensantes à aldeia global.  São Paulo:  Petrópolis, 2009.

BAUMAN, Zygmunt; LEONCINI, Thomas.  Nascidos em tempos líquidos.  Rio de Janeiro:  Zahar, 2017.

CAMINHAS, Lorena Rubia Pereira A midiatização dos mercados do sexo e a configuração da experiência erótica mediada In: Revista Galaxia, (São Paulo, online), ISSN 1982-2553, n. 37, jan-abr., 2018, p. 162-174 Acesso: http://revistas.pucsp.br/galaxia/article/view/32548/25257

CANCLINE, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos: conflitos culturais e globalização. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. [Narrar o multiculturalismo, p. 143-160; Suburbios pós-nacionais, p. 161-177].

CARDOSO, Jean, O ciborgue entre a bio-arte e a arte disturbatória In: Ilha do Desterro, http://www.scielo.br/pdf/ides/v70n2/2175-8026-ides-70-02-00029.pdf

CARDOSO, Isabel Lopes (ORG.), Paisagem patrimônio: aproximações pluridisciplinares. Porto: Dafne, 2013.

CHAMAYOU, Grégoire. Teoria do Drone. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

COLOSSO, Paolo. KOOLHAAS, Rem. Nas metrópoles delirantes – entre a bigness e o big business. São Paulo: Annablume. 2017.

DAVIS, Mike.  Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles.  São Paulo: Página aberta, 1990.  

FELICE, Mássimo di. Paisagens pós-urbanas. São Paulo: Annablume: 2009.

FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação.  São Paulo: Cosac-Naify, 2013.

GLASSER, Edward. O triunfo da cidade. São Paulo: BEí, 2016

GUMBRECHT, Hans Ultich. Nosso amplo presente – o tempo e a cultura contemporânea. São Paulo: Unesp, 2015.

HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari Kunzru. Antropologia do ciborgue: As vertigens do pós-humano.São Paulo: Autêntica, 2000.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34. 2013.

LEMOS, André. Cidade-ciborgue: a cidade na cibercultura In: Galáxia, n. 8, outubro 2004. https://revistas.pucsp.br/galaxia/issue/view/116/showToc.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2016.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2001.

NUNES, Mônica. Memória, consumo e memes de afeto nas cenas cosplay e furry In: Revista Contracampo, Niterói, v. 35, n. 01, p. 142-162, abr./jul., 2016.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano:  da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulos, 2003.

Paisagista pela Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em Ciências da Arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – ProArq – FAU/UFRJ. Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo Programa de Pós-Graduação de Planejamento Urbano e Regional ? IPPUR/UFRJ. Professor Adjunto da Escola de Belas Artes/UFRJ, no Curso de História da Arte. Atua como Coordenador do Grupo de Pesquisas História do Paisagismo- EBA/UFRJ.

Escola de Belas Artes| Universidade Federal do Rio de Janeiro