Morte, arte fúnebre e patrimônio | Rio de Janeiro | 16 E 17.OUT.2019

Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte.
Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade;
quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir,
nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu
que a privação da vida não é um mal; saber morrer

nos exime de toda sujeição e constrangimento.
Montaigne

O SEMINÁRIO

A segunda edição do Seminário Morte, Arte Fúnebre e Patrimônio: interlocuções, lugares e documentos post mortem pretende alinhar argumentos que estruturam as reflexões gerais em torno da natureza e limites do conhecimento humano no que diz respeito à morte, aos ritos, às práticas culturais dos cuidados dados aos mortos, à certificação do cadáver como documento e às paisagens constituídas com base nos fatos que definem o universo físico e metafísico no âmbito da finitude humana.

O  objetivo da segunda edição do Seminário é aprofundar os debates da primeira edição realizada em Pelotas,  Rio Grande do Sul, em 2018 e, prioritariamente, colocar em perspectiva as técnicas, os métodos, a arte e os mecanismos culturais que produzem sentido sobre a morte que, ao longo do tempo e em diferentes culturas, pode – ou não – ser entendido e apresentado como incógnito. Os dogmas e as práticas religiosas, enquanto elementos culturais, contribuem para a conformação de formas artísticas variadas – entre elas, a literatura – que evocam determinados sentidos para o pós-morte.  Desse modo, a produção de visões narrativas, não apenas escritas, sobre o além nos interessa para pensar a morte, o morrer e as variáveis vinculadas à finitude humana, que continuam a produzir versões e representatividades no ambiente construído.

Na contemporaneidade, o arco de processos nos quais a os dilemas da morte se insere são amplos. Por um lado, incluem-se os  territórios do medo, a disseminação do terror e a intensidade da dor da perda e do sofrimento; por outro, a existência do prazer em “ver morrer”, em compartilhar imagens da morte, em assumir, por deleite, a condição de espectador do fim da vida. Paralelamente, os vestígios das ações humanas que podem ser identificados nos restos mortais, nomeiam o cadáver como documento norteador de debates investigativos protagonizados por profissionais da Medicina e do Direito. Nosso entendimento é que as dimensões empíricas e conceituais forjadas a partir da investigação científicas ou, assinaladas por interpretações dentro do plano secular e religioso, ajudaram a humanidade a construir fundamentos para se pensar o círculo de acontecimentos que define o fim da vida e o post mortem.

Diversas paisagens materializadas no cotidiano urbano remetem à morte e ao morrer. Destacam-se a atmosfera lúgubre da arquitetura cemiterial, a arte fúnebre dos sepulcros, as lápides e os cultos in memorian no dia de finados. Porém, o horizonte subjetivo da morte vem à cena também nas manifestações artísticas e culturais – artes visuais, literatura e cinema –, impondo diferentes formas para interpretação do fim da vida e, paradoxalmente, celebrar a memória e existência dos que se foram. Essa arte pode ainda projetar no imaginário coletivo as reminiscências fúnebres de tragédias, guerras e personagens. Pode também fazer reviver as perdas e dores enfrentadas por determinadas sociedades que, acionadas no presente, elaboram novas memórias e tributos aos mortos, remanejam narrativas de um passado sensível, permitindo a visibilidade de traumas, a reparação histórica e a configuração de novos trabalhos de luto.

O ser humano, sabedor de sua finitude, elabora elos entre a realidade baseada nas leis da Física e suas visões oníricas pautadas em mundos transcendentes. Desse encontro emergem evidências materiais e fenomenológicas que habitam o lugar do além túmulo. Em ambos os processos contidos na esfera do sobrenatural, hábitos religiosos, tradições culturais de diferentes sociedades, materialidades cunhadas pelo virtuosismo das artes visuais e da arquitetura, sem ignorar a potência narrativa centrada na literatura e cinematografia revelam-se elementos essenciais para interpretar nossas condutas diante do fim da vida.

E quanto ao corpo morto? Como confrontar as dimensões existenciais de sua extinção enquanto pessoa e as implicações da dissolução da matéria orgânica do cadáver? Quais as instância para o exame do espólio e do legado simbólico acumulado em vida?  O fato é que o corpo morto grosso modo gera na sociedade um reviver, exponencialmente relativo à existência do defunto, seja imediatamente após seu óbito ou posteriormente, em função dos sentimentos e zonas de afeto estabelecidas em vida. O dito objeto, corpo morto, apesar de presente, nos é misterioso e sobrenatural, pois lida com o imponderável que ocorre após sua passagem. A condição do que possa haver após o porvir testifica entre outras coisas assombro, desconforto e insegurança, não apenas relacionada ao destino do finado como também o nosso próprio desígnio post-mortem. Diante disso, o se desfazer da materialidade orgânica do defunto, o enfrentamento da dor do luto e o lidar com as suas memórias apontam para uma complexa cadeia de sentimentos a serem vividas que, necessariamente, não são facilmente superadas por aqueles que continuam a jornada da vida.

Há, também, um ponto de inflexão adicional no processo de aceitação da morte: a condição cadavérica e o local onde a mesma se abriga. Os elementos que conectam a palpabilidade do mundo dos vivos à incognoscibilidade do mundo dos mortos, e que confirmam e configuram a fronteira entre o conforto do pulsar dos corações e a imponderabilidade do fenecimento são o(a) morto(a) e os espaços necrológicos e necrográficos; o corpo que se decompõe e os lugares em que as atividades que ali ocorrem têm a morte como principal requisito arquitetônico e a assumem como o principal agente das compreensões, ideias, decisões e ações que ocupam a geometria construída. Temos, portanto, uma instigante dicotomia a ser ponderada: aquela que trata das inconsistências entre post mortem e seu elemento tangível, ou seja, o corpo morto. O defunto é o elemento que conecta a vida à morte; é a pessoa e ao mesmo tempo não é. Assim, pois, é possível que se estabeleça uma matriz conceitual de debates que forneça subsídios para responder questionamentos que tratem de temas como o aniquilamento da pessoa e a decomposição do corpo – saúde pública, rechaço, luto, certeza de óbito, inexorabilidade do destino humano – e, ainda o pensar sobre o cadáver como prova documental das causas do falecimento (causa mortis).

A comunidade acadêmica representados por docentes, pesquisadores, pós-graduandos, graduandos e  profissionais de áreas afins ao recorte  temático do seminário, estão convidadas para o debate e compartilhamento de suas pesquisas através do envio de Comunicações

MATRIZES DISCURSIVAS

A segunda edição do seminário será constituída de mesas-redondas, painéis de debates e acolherá trabalhos que discutam, questionem e coloquem em perspectivas:

As práticas históricas do urbanismo sanitarista e as ciências médicas com as quais podemos examinar a construção da paisagem cemiterial e de ambientes onde a morte e o morrer se manifestam. Os complexos arquitetônicos voltados aos cuidados da saúde – hospitais, asilos, hospícios e manicômios – considerados essenciais para interpretar como  os moribundos, os que sofrem de distúrbios mentais e doenças contagiosas em idade avançada são sistematicamente privados e subtraídos do fluxo cotidiano da  vida social. No caso particular de complexos hospitalares, ganha relevância nessa reflexão, práticas profissionais, processos e ambientes que tratam do cadáver como necrotérios, os Institutos Médico Legal  e suas extensões como casas funerárias e crematórios.

A contribuição dos estudos da medicina forense, criminalística e criminologia que são um vetor primordial para entender o impacto da morte no cotidiano urbano e as suas representações na esfera da mídias impressa, televisiva e da internet.  

O universo fantástico e sobrenatural pautado pelas tradições culturais e lendas urbanas é uma outra matriz temática do evento. Tal recorte coloca em questão a literatura fantástica e a cinematografia de terror, que se utilizam de cenários urbanos e domésticos simbólicos. Tais ambientações ganham representatividade em edificações abandonadas com seus quartos e sótãos escuros; nos circos de aberrações e seus freakshows; em museus de cera; festas macabras; entre outras múltiplas manifestações, onde a morte e tudo que a ela está vinculado produzem nos espaços de compartilhamento, de vivências e configuram paisagens fúnebres.

CHAMADA DE TRABALHOS

Serão aceitas propostas de comunicação relativas aos eixos temáticos do evento, devendo os proponentes enviar pelo site do  grupo o seu artigo. Os artigos devem ser enviados e atender as seguintes orientações:

Envio de trabalhos inéditos e completos de acordo com a formatação do arquivo que está definido no Template disponibilizado, que deverá ser adotado, sob pena de não aceitação do artigo, mesmo tendo o conteúdo sido aprovado pelo Comitê Científico.

Os trabalhos devem ter no máximo 03 (três) autores;

Os textos das comunicações serão submetidos a revisão por pares cegos;

A aceitação final da comunicação depende dos seguintes critérios: (i) estar inscrito a um dos eixos temáticos do seminário, (ii) recomendação dos pareceristas e (iii) efetivação pelo(s) autores(es) dos ajustes propostos pela Comissão Científica do evento;

Comunicação de  Graduandos serão aceitas mediante a co-autoria de um Orientador;

A inscrição do(a) comunicador(a) e a inserção do seu trabalho na programação final do Seminário somente será efetivada após o pagamento pelo Pag seguro da inscrição do autor. No caso de  trabalhos com até três autores, pelo menos um deles precisa  estar inscrito no evento. Os demais autores, caso tenham o interesse de participar do evento, deverão fazer sua inscrição como ouvintes/assistentes;

Só será aceito  um trabalho por autor.

Os artigos aprovados e que constarem na programação do Seminário, se indicados pela Comissão Científica, serão publicados a partir de janeiro de 2020 na Revista Eletrônica Paisagens Híbridas (https://revistas.ufrj.br/index.php/ph), periódico vinculado ao Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas da Escola de Belas Artes/UFRJ.

Línguas do trabalhos enviados pra comunicação: Português e Espanhol.

EIXOS TEMÁTICOS

Eixo Temático I:  Paisagem e patrimônio sob o signo da finitude humana

Eixo Temático II:  Literatura, cinema e cibercultura: narrativas da morte, do morrer e do além túmulo

Eixo Temático III: O cadáver como documento jurídico e os lugares que o abrigam

CRONOGRAMA DO ENVIO DE COMUNICAÇÕES/INSCRIÇÕES

Submissão de propostas de comunicação:  até 15 de julho de 2019.
Notificação de aceitação: até 01 de Agosto de 2019.
Data limite para inscrição e pagamento da taxa: até 10 de agosto de 2019
Divulgação do programa: 25 de agosto 2019
Inscrição para ouvintes/assistência: até 10  de outubro de 2019 (Vagas limitadas).

INSCRIÇÕES E ENVIO DE TRABALHOS

PROFISSIONAIS | PÓS-GRADUANDOS | GRADUANDOS 
Inscrições Até 10 de Agosto de 2019

PAGAMENTO | R$ 120,00 | Pague: https://pag.ae/7UHCnZLNJ

OUVINTES E ASSISTENTES | INSCRIÇÕES | Até 10 de outubro de 2019

Pesquisadores: R$ 60,00 | Pague: https://pag.ae/7UHCtnP4v

Pós-Graduandos – Docentes da rede pública: R$ 30,00 | Pague: https://pag.ae/7UHCuci9o

Graduandos | R$ 15,00 | Pague: https://pag.ae/7UHCv5rNJ

PROGRAMAÇÃO PRELIMINAR

DIA IQuarta-feira, 16 de Outubro de 2019
Horário
14:00|14:15Abertura do Seminário Morte, Arte Fúnebre e Patrimônio: interlocuções, lugares e documentos post mortem

Prof. Mauro Dillmann | Programa de Pós-Graduação em História - UFPEL
Prof. Guilherme Figueiredo | Escola de Arquitetura e Urbanismo - EAU-UFF
Prof. Rubens de Andrade | Escola de Belas Artes-EBA/UFRJ
14:15|16:30Mesa-redonda I
Paisagem e patrimônio sob o signo da finitude humana
14:15|14:45Prof.
14:45|15:15Prof.
15:15|15:45Profa.
15:45|16:15Mediação e debate
Profa.
16:15|16:30Intervalo
16:30|17:30PAINEL DE DEBATES


17:30Abertura da Exposição:
Onde a morte habita?
Dia IIQuinta-feira | 17 de Outubro de 2019
M A N H Ã
10:00|12:30C O M U N I C A Ç Õ E S
12:30|13:40I N T E R V A L O
T A R D E
14:00|16:30MESA-REDONDA II
Literatura, cinema e cibercultura: narrativas da morte, do morrer e do além túmulo
14:00|14:30Prof.
14:30|15:00Prof.
15:00|15:30Profa.
15:30|16:00Mediação e debate
16:30|16:15I N T E R V A L O
16:15|16:45MESA-REDONDA III
O cadáver como documento jurídico e os lugares que o abrigam
16:45|17:15Prof.
17:15|17:45Prof.
17:45|18:10Mediação e debate
Prof. Guilherme Figueiredo | EAU - UFF
18:10|18:25Encerramento

DATAS E LOCAIS

Quarta e quinta-feira, 16 e 17 de Outubro de 2019.
Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da UFRJ| Universidade Federal do Rio de Janeiro

PESQUISADORES

COMITÊ CIENTÍFICO

Prof. Dr. Antônio Lobo | Museu Paraense  Emílio Goeldi - MPEG
Profa. Dra. Ana Pessoa | Fundação Casa de Rui Barbosa
Prof. Dr. Carlos Terra | EBA/UFRJ
Profa. Dra. Claudia Oliveira | EBA/UFRJ
Profa. Dra. Eliane Cristina Deckmann Fleck | UNISINOS
Profa. Dra. Eloisa Araújo | EAU-UFF
Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira | UFPEL
Profa. Dra. Gizele Zanotto | UPF
Profa. Dra. Helena Lúcia Zagury Tourinho | Universidade da Amazônia - UNAMA
Prof. Dr. Jefferson Rodrigues de Oliveira | UERJ/NEPEC
Prof. Dr. Jofre Silva| EBA/UFRJ
Prof. Dr. Luciano Muniz de Abreu | FAU-UFRRJ
Profa. Dra. Mara Regina do Nascimento | UFU
Profa. Dra. Marta García Carbonero | ETSAM-UPM
Prof. Dr. Marcus Pereira de Magalhães | Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG
Profa. Dra. Rosana de Freitas Pereira | EBA/UFRJ
Profa. Dra. Verônica Damasceno | EBA/UFRJ

CRÉDITOS

Realização
Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas | Escola de Belas Artes/UFRJ
Grupo de Estudos de Arquitetura Cemiterial | Escola de Arquitetura e Urbanismo | EAU/UFF
Laboratório de Ensino de História | LAH– Universidade Federal de Pelotas

Coordenação
Prof. Rubens de Andrade | EBA-UFRJ -Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas - GPPH-EBA/UFRJ
Prof. Guilherme Figueiredo | Escola de Arquitetura e Urbanismo - EAU-UFF
Prof. Mauro Dillmann | Programa de Pós-Graduação em História - UFPEL

Comitê Organizador
Prof. Aldones Nino | GPPH-EBA/UFRJ
Prof. Guilherme Figueiredo | EAU- UFF
Profa. Jackeline de Macedo | EAU- UFF
Prof. Mauro Dillmann | PPGH/UFPEL
Prof. Rubens de Andrade | EBA/UFRJ

Apoio:
Juliana Dias | EAU- UFF (Bolsita FAPERJ)
Juliana Medeiros | EAU- UFF (Voluntária)

Dilvulgação | morteartepatrimonio@gmail.com

Apoios e parcerias

Escola de Belas Artes | EBA/UFRJ
Escola de Arquitetura e Urbanismo | EAU/UFF
Programa de Pós-Graduação em História | PPGH/UFPEL
Grupo de Pesquisa História do Paisagismo
Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Ciência do Estado do Rio de Janeiro | FAPERJ
Grupo de Pesquisa Sistema de Espaços Livres - SEL-RJ

Paisagista pela Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em Ciências da Arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – ProArq – FAU/UFRJ. Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo Programa de Pós-Graduação de Planejamento Urbano e Regional ? IPPUR/UFRJ. Professor Adjunto da Escola de Belas Artes/UFRJ, no Curso de História da Arte. Atua como Coordenador do Grupo de Pesquisas História do Paisagismo- EBA/UFRJ.

Escola de Belas Artes| Universidade Federal do Rio de Janeiro