Mesa-redonda | Onde a morte habita? a cidade sob o signo da tanatologia | 13.NOV.2018

 

Na nota introdutória de sua obra Os vivos e os mortos na sociedade medieval, publicada na última década do século passado, Jean-Claude Schmitt apresenta uma questão de significativa relevância para pensar o destino do homem após a sua morte. Evidencia ele a importância do imaginário da morte e destaca o papel desse ideário, considerando como ele se tornou um aspecto universalmente primordial nas estruturas societárias passadas e que ainda se mantém na atualidade. Ao argumentar sobre a tensão provocada pelo desaparecimento da vida e o terror do desconhecido, imposto aos vivos quando a morte se manifesta, Schmitt afirma que os mortos têm apenas a existência que os vivos imaginam para eles (SCHMITT, 1994, p.13), logo, os vivos estão pré-dispostos a criar e recriar simulacros de uma vida pos-mortem para seus defuntos e assim, pensar em um viver no além paralelo à sua cultura, suas crenças, sua época.

As narrativas apresentadas por Schmitt com frequência, atribuem aos mortos uma vida no além com a descrição de suas moradas e tudo aquilo que os vivos esperam para si próprios. Em outro plano, os discursos do autor são atravessados por questões amparadas na esfera religiosa, interpretadas à luz de visões metafísicas que na prática se valem de inúmeros elementos que habitam o cotidiano do mundo de vivos e nunca, por óbvio, o desconhecido território dos mortos. Nas visões em parte oníricas ou geradas pelo delírio que a dor da morte e da separação são capazes de impelir ao sujeito enlutado, as tradições, dogmas, mitos, medos e assombros se fazem presentes quando os domínios da morte se surge e se estabelecem na vida cotidiana.

Norbert Elias, em suas reflexões sobre a velhice na obra A solidão dos moribundos (1982), considera o peso da passagem do tempo no corpo e reflete sobre os limites da mente para suportar as dores que o morrer decreta aos seres humanos. Elias alerta o que parece óbvio, mas nem sempre, no curso da vida, revela-se como um fato a ser atestado por todos. Ao afirmar que na verdade não é a morte, mas o conhecimento da morte que cria problemas para os seres humanos (ELIAS, 2001, p. 11), Elias constrói para o leitor uma frase simples, mas com um vigor que revela a complexa trama de sentidos que surgem a partir do ato de morrer e mais, das etapas, demasiadamente enigmáticas, que se manifestam pós-morte naqueles que sepultaram seu semelhante e o que vira para o morto além-vida. Elias conclui que nada ainda consegue anular a partícula essencial que define a morte: a certeza da extinção do eu e a subtração do convívio com os vivos.

Com semelhante perspectiva, em Uma história social da morte (2016), Allan Kellehear situa sua análise sobre a morte e o morrer a partir de um contexto transhistórico centrando a discussão em uma visão cosmopolita sobre o fim da vida humana. Kellehear defende a ideia de que a morte ao longo das últimas décadas passou a ser um assunto que necessita de resistência, que a batalha pela vida pode ser, em função dos ganhos científicos, se não vencida, ao menos estendida ao seu limite.  Diante disso, o autor analisa como a tentativa das pessoas de se preparar para a morte apesar de tantos ganhos científicos ainda se mostra frustrada, distorcida e simplesmente negada na contemporaneidade (KELLEHEAR, 2016), ideia que  em parte se soma às conclusões de Norbert Elias.

Ao entrecruzarmos as ideias sobre a mortalidade, o morrer, o falecimento, a ausência, a extinção, o luto e os estados de morte, que as obras e seus respectivos autores apresentam, surgem possibilidades instigantes para entendermos a potência desses fatos e a extensão dessas ações no cotidiano da cidade, especialmente se levarmos em consideração a sua representatividade real ou mesmo fugidia na paisagem e na formação do tecido social que diariamente se depara com o espectro da morte e  com os signos da tanatologia. As ideias trazidas também nos ajudam a interpelar as dimensões que envolvem a finitude da vida ou mesmo o desaparecimento de matéria não-humana que desenha nossas paisagens e que trazem em si memórias de tempos passados, histórias de pessoas e acontecimentos que passaram.

Tal leitura desencadeia processos das mais variadas ordens na construção do ambiente urbano seja no plano socioespacial e patrimonial, cultural e artístico, ou ainda naquilo que deriva das relações no plano imaterial traduzidas religiosidades, os afetos, a solidariedade, as dores, a perplexidade, a estranheza e o temor quando o desaparecimento se instala ou a vida deixa de existir.Tendo em vista essas perspectivas, a mesa redonda Onde a morte habita? A cidade sob o signo da tanatologia firma um encontro entre diferentes campos de estudos que atravessam as artes visuais, a arqueologia e a arquitetura da paisagem, tendo como pano de fundo a ordem do imponderável delineada a partir de estados fúnebres que são impressos na paisagem. Diante deste panorama, cidade e sociedade, arte e paisagem, morte e luto surgem como elementos centrais para se compreender a relação da sociedade com os símbolos, os signos e os ritos que se manifestam no desenho da paisagem e assim, reafirmam as fronteiras limites da existência humana.

O encontro considerará igualmente as culturas material e imaterial que pode ser identificada no tecido urbano e no ciberespaço a partir das ideias de morte, luto, sofrimento, medo, dor, traduzidas por questões relativas à arquitetura cemiterial, aos artefatos que dão conta da historicidade e da espacialidade da cidade, da arte fúnebre tradicional e contemporânea, assim como dos novos  modos interpretativos  que as novas mídias, nas suas mais diferentes plataformas, sugerem para se tratar a morte e o morrer na contemporaneidade. O evento resulta de uma parceria entre os projetos de pesquisa Cemitérios: lugares de dor, luto e memórias paisagísticas do Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas Escola de Belas Artes/UFRJ  e Estudos de Arquitetura Cemiterial da Escola de Arquitetura  e Urbanismo  da Universidade Federal Fluminense | EAU/UFF.

Programação

HorárioPrograma
10:00-10:15Abertura
Christiane Chagas Martins| PPG/UERJ/GPHP-EBA/UFRJ
10:15-10:50Profa. Dra. Jackeline de Macedo | GPPH-EBA/UFRJ
A morte como começo: arqueologia funerária
10:50-11:25Prof. Dr. Guilherme Figueiredo de Araujo | EAU-UFF
Medo, angústia e redenção: requisitos programáticos da arquitetura da casa dos mortos
11:25-11:35Intervalo
11h35-12:10Aldones Nino | EIPUG/GPPH-EBA/UFRJ
Imagens da morte: aniquilamento e violência na arte contemporânea
12:10-12:45Prof. Dr. Rubens de Andrade | EBA/UFRJ/GPPH-EBA/UFRJ
Assimetrias da morte concluída: a presença ausente da finitude da vida na paisagem.
12:45-13:00Mediação
Christiane Chagas Martins
13:10Encerramento

Data | Local

Terça-feira, 13 de novembro de 2018
Faculdade de Letras | Auditório E1
Cidade Universitária da Ilha do Fundão

Inscrições






O certificados serão enviados mediante solicitação  pelo correio eletrônico do  evento: paisagemcemiterial@gmail.com

Participantes

  
Aldones Nino | Doutorando em História e Arte, na Universidade de Granada. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais (PPHPBC), Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) na Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas. Graduando em História da Arte pela Escola de Belas Artes - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisador do Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas da Escola de Belas Artes, UFRJ. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu, USJT-São Paulo
Christiane Chagas Martins | Arqueóloga, Mestranda em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia/UERJ.
Guilherme Figueiredo | Arquiteto e Urbanista; Professor Adjunto do Departamento de Arquitetura da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense; Doutor e Mestre em Ciências em Arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Proarq-FAU/UFRJ.
Jackeline de Macedo | Arqueóloga, Mestre em Arquitetura na área de Preservação do Patrimônio pelo PROARQ/FAU/UFRJ. Doutora em Arqueologia pelo MAE/USP. Ligada ao Grupo de Restauro do PROARQ-UFRJ como arqueóloga pesquisadora; ao Grupo de Pesquisa de História do Paisagismo da EBA/UFRJ. Membro do Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas da EBA/UFRJ.
Rubens de Andrade | Paisagista; Mestre em Arquitetura (PROARQ-FAU/UFRJ) e Doutor em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ); Professor Adjunto da Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ) e Coordenador do Grupo Paisagens Híbridas (EBA/UFRJ).

Créditos

Organização
Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas
Projeto Cemitérios: lugares de  dor, luto e memórias paisagísticas

Coordenação
Prof. Dr. Rubens de Andrade (EBA/UFRJ)
Aldones Nino (EIPUG/GPPH-EBA/UFRJ)

Realização
Universidade Federal do Rio De Janeiro
Escola de Belas  Artes – EBA/UFRJ

Parcerias
Projeto de Iniciação Científica Arquitetura Cemiterial no Município de Niterói | Escola de Arquitetura e Urbanismo (EAU-UFF)

Apoio
Faculdade de Letras – FL/UFRJ

 

Compartilhar