Exposição | Andando na História do meu povo

I walk in the history of my people
Chrystos (Menominee)
From “Not Vanishing”. Press Gang Publishers. Vancouver BC, Canada, 1988.

There are women locked in my joints for refusing to speak to the police My red blood full of those arrested in flight shot My tendons stretched brittle with anger do not look like the white roots of peace In my marrow are hungry faces who live on land the whites don’t want In my marrow women who walk 5 miles every day for water In my marrow the swollen hands of my people who are not allowed to hunt to move to be In the scars of my knees you can see children torn from their families bludgeoned into government schools You can see through the pins in my bones that we are prisoners of a long war My knee is so badly wounded no one will look at it The pus of the past oozes from every poer This infection has gone on for at least 300 years Our sacred beliefs have been made into pencils names of cities gas stations My knee is wounded so badly that I limp constantly Anger is my crutch I hold myself upright with it . My knee is wounded see How I Am Still Walking

Há mulheres presas em minhas articulações por se recusarem a falar com a polícia. Meu sangue vermelho é repleto dos que ficaram presos  na linha de tiro. Meus tendões se repuxam frágeis de raiva não se parecem com as raízes brancas da paz. Na minha medula há rostos famintos que vivem em terra que os brancos não querem. Na minha medula mulheres que andam 5 milhas todos os dias para buscar água. Na minha medula mãos inchadas do meu povo que não pode caçar mover  ser. Nas cicatrizes dos meus joelhos você pode ver crianças arrancadas de suas famílias espancadas em escolas do governo. Através dos pinos de meus ossos você pode ver que somos prisioneiros de uma longa guerra. Meu joelho está tão ferido que ninguém quer olhar para ele. O pus do passado exala de todos os poros. Esta infecção já dura há pelo menos 300 anos Nossas crenças sagradas viraram lápis nomes de postos de gasolina. Tenho o joelho tão ferido que manco constantemente. A fúria é minha muleta Me mantenho em pé com ela Meu joelho está ferido veja Como Ainda Estou Andando

Tradução: Aldones Nino e Mariana Martins


Andando na história do meu povo faz referência ao poema I Walk in the History of My People de Chrystos, publicado em 1988. Tanto a poesia de Chrystos, quanto os trabalhos dos quatro artistas são propostas com o interesse de questionar os resquícios da submissão cultural, partindo de um trabalho de interpretação e visibilidade baseado em mecanismos ligados à(s) história(s) e à memória, criando assim outras imagens plásticas e poéticas.

Esta exposição reúne trabalhos de Agrippina R. Manhattan, Ayla Tavares, Matheus Simões, Mulambö, Nathan Braga, Pedro Pessanha, Robnei Bonifácio e Yago Toscano, artistas que articulam sua poética em torno de questões que envolvam memória, apagamento, subalternidade e resistência. Estes trabalhos se confrontam com a realidade e fazendo uso da imaginação, redesenham futuros possíveis, apresentando discursos que, embora não explícitos, evidenciam ao mesmo tempo a existência de gritos e silenciamentos. Para desordenar as estruturas historicamente construídas precisamos além de força e engajamento, usar a imaginação como disparadora de futuros possíveis, assim fomentando a destruição de processos de atualização de estruturas.

Immanuel Wallerstein em seu livro O universalismo europeu: a retórica do poder (2007), aponta que idéias “igualitárias” da modernidade são usadas para reafirmar uma superioridade falaciosa dos países do eixo ocidental (Europa–Estados Unidos). Assim ele aponta para uma mudança no denominado “Universalismo Europeu”, que ao ser ultrapassado apontaria para o florescer de uma época outra onde existe a alternativa de uma rede de universalismos, que não utilizam mais de arcabouços retóricos para propor caminhos únicos de ação no mundo; ele afirma que devemos persistir na tentativa de analisar o sistema-mundo de nossa época de transição e, assim, “esclarecer as alternativas disponíveis e, portanto, as escolhas morais que teremos de fazer e, finalmente, lançar luz sobre os caminhos políticos que desejamos seguir”. As similitudes entre a produção plástica dos artistas e o poema de Chrystos nos indica como uma série de hierarquias instauram desigualmente benefícios e prejuízos.

O poeta denuncia que “O pus do passado emana de todos os poros/A infecção já dura há pelo menos 300 anos”, enquanto Walter Mignolo afirma: son las historias y las memorias de la colonialidad, las heridas y las historias de humillación las que marcan el punto de referencia para los proyectos políticos y epistémicos descoloniales y para la ética decolonial.

O Brasil tem uma história marcada por extrativismo, violência e exploração, desta forma propostas artísticas dotadas de amplitude cognitiva e histórica estabelecem um espaço crítico que auxilia na legibilidade do momento atual. O pensar decolonial é uma outra maneira de conhecer o que co-existe no conflito, sendo uma ferramenta útil para pensar como o conflito se dava durante a época colonial e seus impactos em nosso presente. O encontro entre questões sociais e propostas estéticas é evidente no trabalho destes artistas diante da confrontação com o conceito de universalidade.

As distintas materialidades reivindicam a quebra de imposição do acordo colonial. As pesquisas destes artistas buscam trabalhar a potência da impossibilidade, uma tentativa de analisar nossa atualidade, posicionando-se e propondo alternativas que fomentem a discussão e realocação de sujeitos produtores de sentidos e saberes. Essa reunião de trabalhos abre uma fresta no presente, buscando evidenciar problemáticas históricas de acesso a benefícios e possibilidades de existências. Frente à determinados processos históricos, afirmamos: ainda que nossas articulações possam estar feridas, nossa escolha ética e poética é andar na história do nosso povo.

O pensar decolonial é uma outra maneira de conhecer o que co-existe no conflito, sendo uma ferramenta útil para pensar como o conflito se dava durante a época colonial e seus impactos em nosso presente. O encontro entre questões sociais e propostas estéticas é evidente no trabalho destes artistas diante da confrontação com o conceito de universalidade. As distintas materialidades reivindicam a quebra de imposição do acordo colonial.

As pesquisas destes artistas buscam trabalhar a potência da impossibilidade, uma tentativa de analisar nossa atualidade, posicionando-se e propondo alternativas que fomentem a discussão e realocação de sujeitos produtores de sentidos e saberes. Essa reunião de trabalhos abre uma fresta no presente, buscando evidenciar problemáticas históricas de acesso a benefícios e possibilidades de existências. Frente à determinados processos históricos, afirmamos: ainda que nossas articulações possam estar feridas, nossa escolha ética e poética é andar na história do nosso povo.

Aldones Nino
Curador

Local e Datas

Andando na história do meu povo
Curadoria: Aldones Nino

Abertura: 04 de julho de 2019 de 17h00 as 20h00 
Visitação: De 05 de julho a 15 de agosto de 2019

Galeira Gustavo Schnoor
Rua São Francisco Xavier, 524 – Campus da Uinversidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ – Maracanã | Rio de Janeiro

Registros da Abertura