Arqueologia de Paisagens Múltiplas | polivocalidades e densidades simbólicas do ver, ouvir e sentir o lugar | 05 e 06.07.2018

(….) os seres humanos não habitam apenas no espaço físico ou geométrico, vivem também e simultaneamente, em espaços afetivos, estéticos, sociais, históricos, assim esses espaços antropológicos estendem-se ao conjunto da humanidade (LÉVY, 2003).

 

Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas | GPPH (EBA-UFRJ), ao promover o agenciamento de discussões com pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, tem como propósito incentivar a reflexão sobre o campo da arqueologia e o interesse em ampliar sua zona de contato com os estudos da paisagem. Neste sentido, através da linha de pesquisa A cidade como artefato: arqueologia, paisagem e patrimônio, o GPPH promove na Fundação Casa de Rui Barbosa o II Simpósio Arqueologia de Paisagens Múltiplas, três anos após realizar no Museu da República (RJ) a sua primeira edição.

A proposta do recorte temático interessa-se por conjugar questões que transitam na extensão de conceitos estudados em diversos campos, tais como espacialidade, temporalidades humanas, polivocalidades e densidades simbólicas do lugar, além das experiências sensíveis do ver, do ouvir e do sentir as paisagens consideradas enquanto experiências estéticas. A paisagem é apreciada à luz das diversas vertentes do pensamento arqueológico, e de áreas do conhecimento envolvidas com a mesma temática. Desta forma, visamos deflagrar sua multiplicidade, potencialidade e valiosa efervescência contemporânea, a fim de que tal processo possa nos conduzir à reflexões profícuas e estimulantes sobre temas caros à contemporaneidade.

A escolha do debate para esta segunda edição do Simpósio Arqueologia de Paisagens Múltiplas, considerado nos termos que o constituem, suscita especial atenção aos campos da arqueologia, geografia, arquitetura e paisagem que, pela perspectiva interdisciplinar proposta,  debruçam-se sobre o exame de aspectos relacionados à cultura material sob uma perspectiva atemporal, conjugando também, em seus elos e relações, uma interpretação do modo pelo qual os vestígios arqueológicos tornam-se elementos essenciais para dimensionar diversas esferas do comportamento cultural e social. Por meio destes artefatos, que são interligados aos processos sociais em cujos contextos foram produzidos, corporificam-se formas no espaço, impregnadas de significação cultural e, como tais, reveladoras dos seus próprios processos, capazes de tornar concretos valores abstratos e, principalmente, comunicar mensagens estéticas não verbais que operam muitas vezes, reciprocamente, como modeladores destes mesmos espaços e comportamentos sociais.

Estes vestígios materiais exponencializam múltiplas dimensões de interpretação sobre o espaço construído, manifestando, para além das imagens enquanto acontecimentos, as ideias no seu teor de elaborações mentais não conscientes, trazendo à tona, de muitos modos, intenções subjacentes às escolhas artefactuais presentes na produção destes espaços. A multidimensionalidade da cultura material – e os espaços por ela ocupados – promove olhares distintos sobre a paisagem, conformando-a como objeto de estudo de diversos campos do conhecimento aos quais o presente Simpósio almeja dar voz, pela forma como estabelecem diferentes interpretações sobre este mesmo objeto.

A cada interpretação são criados distintos mundos de significados, de modo que uma mesma paisagem pode suscitar sentidos não semelhantes, convergentes ou divergentes entre si: trazer interpretações de diferentes disciplinas sobre um mesmo objeto pode potencializar um concerto de vozes que é, em realidade, um antídoto contra a imposição de um único modelo de leitura da paisagem. Isto serve também, como um vigoroso recurso à interdisciplinaridade pela recusa de interpretar os vestígios arqueológicos e suas paisagens sob um viés exclusivo, caracterizado por um reducionismo epistemológico. Ao contrário, pretende-se compreendê-las, através do caminho acima proposto – que nos distancia de abordagens ecológicas ou econômicas – como elementos ativos e dinâmicos que atuam nas relações entre grupos humanos (e não apenas a materialidade), porque atuam sobre o comportamento humano com seu poder transformador.

Desta maneira, as paisagens funcionam, simultaneamente, como marcas, posto que refletem os mecanismos sociais que a produziram, e matrizes, porque determinam suas estruturas de reprodução. Os vestígios arqueológicos, considerados enquanto forma espacializada da cultura e constituintes das paisagens, assumem simultaneamente, um caráter de meio (por onde sistemas simbólicos são reproduzidos, legitimados e transformados) e condição (para a constituição do sentido da paisagem). Podem também servir como indicadores de significados culturais, capazes de iluminar interesses e intenções subjacentes ao discurso dominante.

São os arqueólogos que conferem à cultura material significados e sentidos, passando-a a agentes ativos na transmissão e na reprodução do significado cultural, ordenando a vida social, recriando-a continuamente de forma que esta dimensão da cultura material não pode ser ignorada. Como afirma Ian Hodder, esses significados não resultam apenas da sua produção, mas também de seu uso e da forma pela qual os outros a percebem. Ou seja, estes elementos podem variar de acordo com os contextos históricos nos quais estão envolvidos, e ser continuamente transformados visto seu caráter fluido. A percepção da paisagem possibilita ao pesquisador expandir suas possibilidades analíticas, abrindo caminhos para a investigação por domínios até então inexplorados como a dimensão sensorial – portanto estética –, dimensão que é a fonte de nossa experiência com o mundo ao redor. Esta dimensão é uma construção social na qual os significados que os indivíduos atribuem aos sentidos se baseiam em moldes aceitos socialmente, pois não percebemos os objetos a nossa volta como eles são, mas pela mediação de conceitos pré-existentes na cultura.

Visamos promover interpretações e interações dos aspectos visíveis não apenas por meio de leituras baseadas no campo estrito dos estudos da paisagem, mas pelo resgate de sentimentos e percepções das paisagens, a fim de desenvolver uma arqueologia mais reflexiva tanto do ponto de vista teórico, quanto metodológico. Devemos considerar as características físicas, temporais, espaciais e simbólicas que operam como instrumentais de forças e interesses de processos e agentes socioculturais distintos, não raro, dissimulados ou velados.

Discursos de diferentes matizes tendem a expor tanto contradições como convergências na lógica que subjaz à construção de paisagens, e por sua vez, podem vir a revelar uma variável simbólica complementar àquela tradicional, que privilegia dinâmicas de uso específicas.

Ao realizar este deslocamento na análise, nos afastamos de uma premissa estritamente produtora de valor material para integrar uma outra, que se funda em valores sensoriais, imaginários e simbólicos encarnados na paisagem exatamente por meio da cultura material.  A consideração, destas variáveis complementares amplifica e atualiza o pensamento sobre a paisagem, além de conferir ao mesmo, a habilidade de revelar ideologias hegemônicas. Em alguns casos, é possível trazer à luz estratégias disciplinares de controle sobre processos e comportamentos sociais, por meio da percepção sobre como determinado estrato social dominante pode impor, pela preponderância de um tipo de materialidade, os valores e normas de seu grupo como sendo de toda a sociedade, funcionando como um mecanismo altamente sofisticado e coercitivo, através do qual a articulação de certas configurações espaciais atuam no condicionamento de comportamentos culturais daqueles grupos que deseja controlar.

Assim, mediante o acesso ou interdição à certos arranjos espaciais, domesticam o movimento do corpo para sujeitar comportamentos sociais, pois, a mente aprende a pensar sobre as relações espaciais só bem depois que o corpo as tenha entronizado. O indivíduo é o ponto de partida e o meio de apreender o mundo à sua volta, sendo também, por isso, instrumento primário de pesquisa: o corpo, ao exercer os sentidos, apresenta-se como principal mediador com o entorno, tendo nas sensações que este possibilita, um leque de informações que absorvemos culturalmente.

A paisagem, portanto, não se constitui de forma alguma num espaço vazio ou num espaço neutro; pelo contrário, caracteriza-se por uma construção cultural altamente comprometida ideologicamente com valores e normas estabelecidas por estratos sociais que a dominam e que são os principais responsáveis por coordenar sua transformação. A paisagem, portanto, apresenta-se, como um signo aberto, de alta capacidade simbólica franqueado à construção de diferentes leituras, indicando ser um território fértil e de repertório vasto para se pensar a relação humana com o mundo, através de diferentes áreas do conhecimento.

Nessa ordem de questões é que o II Simpósio Arqueologia de Paisagens Múltiplas: polivocalidades e densidades simbólicas do ver, ouvir e sentir o lugar, tentará aprofundar o quanto possível, tais discussões e assim, transpor algumas fronteiras deste tema tão instigante e desafiador.

Jackeline de MacedoChristiane Chagas Martins | Junho, 2018.

PROGRAMAÇÃO

DIA, 05 Quinta-feita
9:30 | 10:00 Abertura
Prof. Dr. Rubens de Andrade | EBA/UFRJ
Profa. Christiane Chagas Martins | UERJ
Profa. Dra. Jackeline de Macedo| GPPH-EBA/UFRJ - PROARQ/FAU/UFRJ
10:00 | 12:30Mesa-Redonda I
As múltiplas paisagens e suas dimensões simbólicas: criadas para se viver e experienciar.
10:00 | 10:30Prof. Dr. Jefferson Rodrigues de Oliveira | UERJ/NEPEC
10:30 | 11:00Profa. Me. Rachel de Almeida Moura | UFRJ
11:00 | 11:30Profa. Dra. Lenice da Silva Lira | UFRJ/UERJ
11:30 | 12:30Mediação e debate
Christiane Chagas Martins | UERJ
DIA, 06Sexta-feita
9:30 | 13:00Mesa-Redonda II
Paisagem como artefato: um olhar sensível para as suas marcas
9:30 | 10:00Abertura
Profa. Dra. Jackeline de Macedo | GPPH-EBA/UFRJ - PROARQ/FAU/UFRJ
10:00 | 10:45Prof. Dr. Marcos André Torres de Souza | Museu Nacional/UFRJ
10:45 | 11:30Prof. Dr. Andrés Zarankin | FAFICH-UFMG.
11:30 | 11:45Intervalo
11:45 | 12h30Mediação e Debate
Profa. Dra. Ceça Guimarães | PROARQ-FAU/UFRJ
12:00 | 13:00Encerramento

DATA | LOCAL | INSCRIÇÕES

Data | 05 e 06 de Julho de 2018.

Local | Fundação Casa de Rui Barbosa | Sala de Cursos | Rua São Clemente, 134 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ.


INSCRIÇÕES






PESQUISADORES

  
Andrés Zarankin | FAFICH-UFMGA | Antropologo (orientação em Arqueologia) pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, Doutor em Historia (Unicamp), Atualmente é professor titular do Departamento Antropologia e Arqueologia da FAFICH-UFMG, da graduação e Pós-graduação.
Christiane Chagas Martins | Arqueóloga, Mestranda em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia/UERJ.
Ceça Guimarães | PROARQ-FAU/UFRJ | Arquiteta Urbanismo (UNB), Mestre em Teorias da Comunicação e da Cultura (UFRJ), Doutora em Planejamento urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional e Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.Pós-doutora em Museum and American Studies pela New York Univesity, Professora colaboradora do PROARQ/UFRJ; membro titular do Conselho Fiscal do Instituto de Arquitetos do Brasil (Direção Nacional); membro do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; e membro do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro.
Jackeline de Macedo | Arqueóloga, Mestre em Arquitetura (Preservação do Patrimônio pelo PROARQ/FAU/UFRJ e Doutorado em Arqueologia pelo MAE/USP. Pesquisadora e Professora Visitante do Mestrado Profissional em Arquiteutra | Programa de Pós-Graduação em Arquitetura - PROARQ-FAU/UFRJ.
Jefferson Rodrigues de Oliveira | UERJ/NEPEC | Geógrafo (UERJ), Doutor e Mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (UERJ). Professor colaborador e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura | NEPEC.
Lenice da Silva Lira | Geógrafa (Universidade Federal Fluminense), Mestre em Geografia (Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ) e Doutora em Geografia (UFRJ), com doutorado sanduíche na Université de Valenciennes et du Hainaut-Cambrésis.
Marcos André Torres de Souza | PPGArq /MN/UFRJ | Arqueólogo, Mestre em História (Universidade Federal de Goiás) e Doutor em Antropologia por Syracuse University, EUA. Professor Adjunto do Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Antropologia, Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PPGArq) e Pesquisador do CNPq.
Rachel de Almeida Moura | Geógrafa (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (UERJ) e Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Geografia (UFRJ). Professora Docente I da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC) e da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME)

CRÉDITOS

Realização
Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas – GPPH-EBA/UFRJ.
Linha de Pesquisa: A cidade como artefato  arqueologia, paisagem e patrimônio

Organizadoras 
Profa. Dra Jackeline de Macedo.
Prof. Christiane Chagas Martins.

Comissão Organizadora  
Aldemar Norek | Mestre e Doutorando em  Arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura  – PROARQ-FAU/UFRJ.
Profa. Christiane Chagas Martins | Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia (UERJ).
Profa. Dra Jackeline de Macedo | GPPH-EBA|UFRJ – PROARQ-FAU/UFRJ.
Prof. Dr. Rubens de Andrade | GPPH-EBA/UFRJ.

AGRADECIMENTOS

Mara Sueli | Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB.
Dra. Ana  Pessoa | Fundação Casa de Rui Barbosa – FCRB.
Profa. Dra. Zeny Rosendahl | Programa de Pós-Graduação em Geografia – UERJ, Coordenadora do NEPEC-UERJ e Programa de Extensão de Estudos Avançados em Geografia.

APOIOS E PARCEIROS

Fundação Casa de Rui Barbosa | FCRB.
Escola de Belas Artes | EBA/UFRJ.
Grupo de Pesquisa História do Paisagismo | GPHP-EBA/UFRJ.
Grupo de Pesquisa Sistemas de Espaços Livres | SEL-RJ-PROARQ-FAU/UFRJ.

 

 

 

 

 

 

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